Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

11.7.05

O Segredo de Tássia (parte 1)


(versão comentada pelo Diretor)

Tássia era bonitinha e sorridente. Nâo tinha nem quatro anos, e já era simpática e extrovertida.

Essas características permitem concluir que ela era querida e amada por todos os familiares, que tinham orgulho da vivacidade de sua querida menininha. Seu padrinho, Tio Gepeto, vivia mimoseando sua afilhadinha com toda a sorte de guloseimas e pequenices, que contribuíram para deixá-la fofucha e gordinha.

(* nota de rodapé de parágrafo: os feios só conseguem ter alguma simpatia na internet, num gesto desesperado para aplacar a carência afetiva. Resultado mais comum: profiles no Orkut gigantescos, com longas descrições sobre a personalidade, como se gritasse subliminarmente "me amem! me amem!".))

Quando fez cinco aninhos, começou a frequentar o jardim de infância, que é a primeira experiência social de uma pessoa. E lá que sua personalidade aflorará e será trabalhada.

(* nota de rodapé de parágrafo: Nunca li Piaget e essas paradas de pedagogia. Aliás, só fui saber de Piaget num livro sobre a linguagem de programação Logo, "aquela da tartaruguinha" .)

Mesmo entre amiguinhos de sua idade, Tássia continuava a mostrar a mesma simpatia que exibia entre seus familiares. Era querida por todos os seus coleguinhas, especialmente por um ruivinho gorducho, futuro proprietário de uma placa de vídeo Radeon e de 100 Terabytes de pornografia digital em 2020.

(* nota de rodapé de parágrafo: por uma dessas coincidências que só a engenharia genética pode explicar, todo ruivo gordo torna-se engenheiro e punheteiro hardcore, daquele que sabe de cor não só o nome das atrizes pornô americanas, mas sabe indicar, sem gaguejar, a estória de vida de cada uma, numa minuciosa biografia que pessoas normais jamais se preocupariam em fazer .)

Subitamente, sua simpatia e alegria, suas bochechas rosadas e sadias, seu modo vivaz de ser perderam todo o seu brilho diante de um problema que Tássia acabou desenvolvendo na escolinha.

(* nota de rodapé de parágrafo: em estórias, o mal sempre é súbito. Sempre é algo que interrompe a paz dos protagonistas. Pode ser um fato da natureza - calamidades ; um fato interno - doenças; ou um fato de terceiro - filhadaputice alheia.)

Tia Bernadete, uma professorinha gostosa e peitudinha de pouco mais de 19 anos, noiva de um sargento do Exército, detectou o problema: Tássia sofria de imperiosos gases, que a tornavam a peidorreira da classe. Se ela risse ou se fosse tocada por alguém, seus furiosos intestinos juvenis soltavam toda a sorte de elementos químicos malcheirosos que empesteavam todo o ambiente.

(* nota de rodapé de parágrafo: embora a informação de que a professora fosse noiva de um sargento se mostrasse um tanto quanto desnecessária, apenas o fiz para mostrar que a professora traía o rapaz, afinal, toda noiva de milico não para quieta. )

Tássia foi levada à Diretoria da escolinha, em que foi submetida a uma CPI informal, sem direito a defesa e a contraditório, e sem a presença de seus pais, determinando, como resultado, que ela fosse expulsa da instituição, sob o fundamento de que meninas peidonas afetam não só a camada de ozônio, como que o decoro da escola.

Daí em diante, as bochechinhas murchariam para sempre.

(fim da 1a. parte)