Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

22.10.04

Faroeste Paraíba



Pâmela e Tony eram amigos desde a infância. Moravam na mesma rua, na Tijuca. Cresceram juntos. Iam naqueles bailinhos de merda, que tijucano adora, em que meninos levam salgado, meninas levam doce e cu doce. Eram fãs do Depeche Mode. Trocavam confidências. Ou seja, tinham todos aqueles clichês que caracterizavam uma amizade longa, duradoura e nascida na tenra idade.

Tony cresceu, e apesar do cabelo ruim, virou o galãzinho da rua aos 14 anos. Fazia sucesso com as tijucanas, que o achavam parecedíssimo com o Robby Menudo. Em pouco tempo, já beijava na boca e era agraciado com um boquete no playground. Até aprendeu a frase "sem dentes, porra".

Pâmela era uma criancinha feia, virou uma garota horrorosa: era alta, desajeitada, com um nariz pequeno e uma boca enorme, além de ter grandes e profundas olheiras, que davam um aspecto mórbido a sua já mórbida feiúra.

Vale ressaltar que na época da adolescência costuma ocorrer um fenômeno curioso: a criação da definição de "populares" e losers. O critério é simples: os bonitos são os populares, que são convidados para todos os eventos, enquanto que os losers são esquecidos, largados, lembrados apenas quando se é necessário humilhar alguém.

Contudo, a disparidade de beleza entre Pâmela e Tony não destruiu sua amizade. Continuaram juntos e Tony, o bonitão da Doutor Satamini, carregava sempre a Pâmela pras festinhas. Ele pegava duas ou três. Ela ficava de muxoxo, sendo encochada por algum porteiro.

O fracasso amoroso de Pâmela a conduziu para a bebida. Aos 16 anos, viu que o mundo poderia ser mais tolerável e menos feio depois da terceira cerveja.

Para complicar a situação, a mãe de Tony, uma cabelereira de mão cheia, que atendia nos fundos da casa, ganha um dinheirinho e resolve se mudar para Copacabana, para atender a velharada com dinheiro.

A piranhada da Doutor Satamini compareceu em peso na festinha de despedida de Tony. Beijou todas e mais algumas.

Com a distância, os amigos que antes se viam 3 vezes ao dia, mal se encontravam. Tony começou a trabalhar e Pâmela, sozinha e baranga, se afundava na bebida.

Contudo, se reencontraram no final do ano, na festa em que a tia da Pâmela organizou num rodízio de pizza, bem coisa de tijucano. Tony se despencou de Copa para rever os amigos e fazer uma social. Obviamente, sentiu saudade da xoxota da zona norte.

Quando chegou no local, fez questão de se dirigir de início à Pâmela que, já alcoolizada, o rechaçou, aos berros:

- Sai daqui, seu filho de cabelereira! Seu filho de cabelereira!

E, de forma indolente, gritava:

- Tu é um paraíba! Tu é um paraíba.

Ficou um silêncio constrangedor na mesa, mas quando chegou a pizza de frango com catupiry, o assunto foi esquecido.

Depois desse incidente, Tony se afastado de Pâmela. Não entendia o motivo. Teria feito alguma coisa com sua amiga? Tony refletia, amargurado, buscando lembrar de algo que teria feito ou dito que magoasse a estrupícia.

Tomou coragem e, no evento seguinte, que foi o noivado da Ana Paula (também conhecida como Pauladentro) com um playboyzinho da região (daqueles que tem um carro 1.0 rebaixado, com calotas mudernas de cem real), compareceu, na tentativa de resolver o mistério.

Depois de ganhar um boquete da anfitriã na escada de incêndio, nosso herói foi ter com a Pâmela que, mais uma vez, o maltratou violentamente na frente de todos.

E esse tratamento cruel e vergonhoso era dispensado a Tony em todas as vezes em que se aproximava de sua amiga, qualquer que fosse o evento. Seja velório, batizado, festa de quinze anos ou missa de sétimo dia. Sempre ficava calado, com um sorriso amarelo moldando sua cara de babaca, ouvindo ser chamado de "filho de cabelereira" e "paraíba".

O leitor já deve ter percebido que o rapaz não é muito inteligente...

Contudo, as coisas foram diferentes no derradeiro encontro quando foi a formatura de Jéssica, prima de Pâmela que era amiga intra-uterina (percebam o eufemismo) do Tony.

Após se aproximar da formanda para dar os parabéns, Tony é abordado por Pâmela que, esquecendo-se mais uma vez do local em que se encontrava, arma um barraco e chama o pobrezinho de "filho de cabeleira", repetindo diversas vezes.

O curioso é que Tony não deixou barato e, como num desabafo, aponta o dedo para a cara imunda de Pâmela e replica ferozmente:

- Melhor ser filho de cabelereira do que filho de chacrete! Filha de chacrete! Tua mãe ficava chacoalhando o cu no programa do Chacrinha, que eu sei! O Carlos Imperial comeu tua mãe!

A cara da Pâmela foi ao chão. Ela revirou os olhos e desmaiou. Teve parada cardíaca e foi levada ao hospital. Salvaram a baranga.

A vida dos dois nunca mais foi a mesma. Tony virou garoto de programa e come as bichas gringas que vão na Leboy. Pâmela tomou vergonha na cara e estudou medicina, e hoje trabalha nos "Médicos sem Fronteiras" em seu posto no Congo.