Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

9.8.04

Náufrago



Sexta-feira. Dia feliz. Tio Ada vai pro banheiro, fazer sua tradicional turnê matutina pelas louças (pia-vaso-chuveiro) antes de ir para o escritório.

Como o ato contricional a nível de casinha exige privacidade e sossego, Adamastor,nosso herói e narrador dessa estória, se tranca no retromencionado aposento e inicia seus trabalhos.

Contudo, Ada percebe que faltava sua mousse-gel-para-barba-italiana, item indispensável para um homem moderno que tem pele boa e mora bem.

Ao girar a maçaneta, surge o espanto: a porta não abria. Tentei novamente destravar, e nada.

Estava preso.

A sorte é que meus pais e demais parentes estavam ainda em casa. Clamei por socorro e fiquei durante meia hora sendo sacaneado por todos, do meu pai, passando por minha mãe e até incluindo meu porteiro, Seu Bobinho, que não sei porque estava lá.

Depois de humilhar minha pessoa, o povo resolve chamar um chaveiro, que demora mais um tempo para chegar.

O jeito era relaxar naquele lugar, embora a tensão de ficar preso ali fosse grande. Peguei uma revista VIP( a revista cujo target são os rapazolas paulistanos, de classe A/B, cujo maior objetivo na vida é ter uma barriga tanquinho e ser descolado) e fiquei folheando, vendo o quanto os colunistas forçam para serem cariocas, cool e modernos, nessa ordem.

Levou outra meia hora. Deu pra ler a VIP, uma Info Exame sobre casemod ("Casemod: the paraiba way of life goes to computing". Adamastor da Silva, 2004) e ainda o Jornal do Commemmércio, aquela porra que suja os dedos de tinta e não tem notícia que preste.

Eu tava lendo a parte de bolsa de valores do Commemércio quando o chaveiro, um gordinho de barbicha, adentra no ambiente para me resgastar, arrebentando o trinco com um martelo de bife.

Fui flagrado sentado no bidê, com meu short Silze (aquele do Zico), tentando parecer cool, para esconder a vergonha.

O sujeito prendeu o riso, e disse que eu tava "salvo".

Respondi que só faltava ler a parte de esportes pra eu ir embora (o Commemmércio não tem seção de esportes. Tentei dar uma de humor britânico. Quando você está fodido, improvise.)

Consegui me libertar do meu cativeiro mictórico, contudo, sou motivo de chacota perante meus considerados. Daqui a pouco passa, azar.

Apesar de todo esse incidente traumático, vejo que sou sortudo. Imaginem se esse acidente ocorresse num sábado, com a família viajando e eu sozinho em casa?

Passaria o fim de semana alimentando-me de sabonetes e bebendo água da pia. Até faria amizade com o rolo de papel higiênico.