Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

12.5.04

Quem manda ser pobre?

Pra vocês verem como é doloroso o mister de defender a liberdade, a democracia e os direitos e garantias do artigo 5o, éle-xis-três-pauzinhos:

Certa vez, estava cuidando de um caso criminal envolvendo um velhinho que teve seus pertences furtados por um ex-empregado.

Pelo procedimento policial, o supracitado velhinho teria de comparecer à delegacia policial para prestar depoimento perante um policial.

Contudo, como o pobre ancião tinha mais de 90 anos de idade, não seria capaz dessa incrível tarefa.

O delegado, rapaz novinho e inocente (eufemismo mode on) resolve chamar o coroa na chincha, exigindo a presença dele, sob pena de prisão.

Fiquei sabendo dessa barbaridade numa sexta à tarde e, com meus trajes esportes (calça jeans e camisa dentro da calça - sou adepto do casual friday ), dirigi-me à DP, localizada num bairro da Zona Sul do Rio, para entregar uma petição ao delegado.

Nessa minha modesta e brilhante obra jurídica, apresentei (novamente, por sinal), uma cópia da carteira de trabalho dopobrezinho, que atestava sua idade provecta.

Seguindo o andamento da coisa, fui ao setor que recebe as petições e que cuida dos inquéritos policiais (chamado SESOP) e pedi gentilmente a um gorducho, com cara de pai-de-puta, que recebesse minha petição.

O cara tomou a folha da minha mão, olhou com cara de nojo e me deu um tremendo esporro : "como é que você não vai trazer a testemunha? O delegado mandou?".

O infeliz fez uma tremenda zona. Até fiquei assustado naquele momento.

Contudo, me lembrei dos ensinamentos da minha avó, que me criou como menina até os 10 anos: "se cair da passarela, levante-se e siga em frente!"

Aproveitando que o camarada parou para respirar um pouco, repliquei, com a sutileza britânica que me é característica:

- O senhor deve ter lido, mas não deve ter entendido.

Em resumo: chamei o cara de burro. Quem lê e não entende, salvo melhor juízo, é burro, analfabeto, ignorante, filho-de-porteiro.

Acredite: ele murchou. Perguntou se eu era advogado. Passou a me tratar de "doutor". Baixou a bola, mas não pediu desculpas. Foi solícito e gentil.

Fui embora, certo de que ser um "cidadão comum" é uma merda.

Agora, imaginem o que ele faria se eu fosse um crioulo com a camisa do Flamengo?