Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

17.4.04

Traumas



Eu tenho um certo trauma de poesia, trauma este que decorre, em parte, pelo fato de que todo poeta, além de mindingo, é alguém que adora se fazer de pobrezinho, infeliz e/ou sofredor. Vide Fernando Pessoa e aquele outro rapaz esquisito de bigodinho.

Mas eu tenho de confessar a vocês, criançada: grande parte do meu trauma, aliás, da minha aversão ao mundo encantando das rimas simétricas, estrofes e estribilhos vêm do Concurso de Poesia que o meu irmão do meio, o festejado Kiko, perdeu.

A estória foi a seguinte: o colégio dele, que era dirigido por um velhote metido a intelectual e a poeta, promoveu um concurso de poesia entre os alunos de todas as séries. A garotada teria de criar uma poesia e recitá-la perante a patuléia, digo, a platéia.

Meu irmão resolveu participar. Criou uma poesia bonita, recitou direitinho, mas ficou em terceiro lugar.

Em primeiro lugar, ficou uma menina, que fez uma poesia sobre traição amorosa.

Em segundo lugar, ficou um viadinho, que, obviamente, só podia falar sobre o mundo colorido de quem amar o seu igual.

Embora achasse que a poesia do meu irmão fosse melhor que a do viadinho, reconhecia a superioridade da poesia da garota, embora estranhasse que uma fedelha pudesse falar sobre algo que uma criança dificilmente compreenderia.

Pois bem, a menina venceu mesmo, e a poesia teve uma tremenda repercussão na comunidade. Chegou até mesmo a ser reproduzida na rádio local.

Bem, aí é que começaram os problemas...

Um ouvinte reconheceu a poesia vencedora: era de Vinícius de Moraes.

Aí foi uma tremenda zona. A comissão organizadora, presidida pelo intelectual babaca, foi investigar e acabou descobrindo que a filha da putinha copiou a poesia do Poetinha.

Criou-se uma incrível situação de mal-estar. Como é que aquela cambada de pseudo-intelectuais não foi reconhecer um poema do Vinícius de Morais? Que fosse do Profeta Gentileza ou do Arnaldo Antunes, mas do Poetinha, como pôde?

Uma vez desmascarada a farsa, tanto do talento da menina, quanto do conhecimento cultural da comissão, o prêmio, que era uma estátua cafona, passou para o viadinho e o seu poema igualmente florido.

Meu irmão aceitou olimpicamente a derrota, e nunca mais cometeu, digo, criou outra poesia.

A menina sumiu do colégio, e o viadinho, seguindo seu destino, tornou-se secretário da Câmara de Vereadores da cidade.

E foi isso.