Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

6.4.04

Léo Preto e a fonética



Eu gostava do Léo Preto, antigo guitarrista de minha banda underground.

Ele era meio metido a malandro, mas era boa gente.

Éramos amigos, mas ficamos 1 ano sem nos falar por causa da "guerra de trotes telefônicos de 1990".

A estória foi assim:

O crioulo gostava de passar trote pra minha casa quase que todo dia.

Em represália, saquei o meu antigo micro TK3000 //e, e usei um programa de text-to-speech para minha vingança. Sabendo detalhes da vida da família do sujeito, como o fato de que todos eram correntistas do Banco Banerj, planejei os fatos.

Esse programinha text-to-speech era rudimentar, mas, apesar do programa usar a fonética americana, adaptei várias palavras da língua portuguesa. Eu cheguei até a fazer um dicionário de 300 palavras. Coisa de nerd, obviamente.

Daí, liguei para o trabalho da Dona Black, a mãe do camarada, e aproximei o telefone do computador. O micro fez o resto:

alow eh dow ban ko bah nerr gee
(alô, é do Banco Banerj)

ah shua kon ta foee kan set lah dah
(a sua conta foi cancelada)

fah vorr fah lah kon se oo ge ren tee
(favor falar com o seu gerente)

A nega fez um escândalo. Xingou meia hora. DIsse coisas como "seu computador filho da puta, você tá me sacaneando! Ninguém mexe no meu dinheiro assim!"

Eu sei que deu uma merda danada na casa dos Black. Voou pena pra tudo quanto é lado, pois havia desconfiança de que a conta teria sido zerada pelo Seu Black, o patriarca, que era viciado em carteado (fato que eu não sabia e que, se soubesse, teria explorado).

A confusão só foi resolvida quando D. Black foi na agência pra falar com o gerente. Ele riu na cara dela, dizendo que o banco não tinha "terminais inteligentes com sintetização de voz".

Léo Preto viu então que era trote. E o único retardado capaz de fazer algo tão idiota e engenhoso era eu, nerd, cdf e com um computador de 8 bits e meio megarrétis.

Ele veio pra cima de mim, queria me dar porrada, mas esqueceu de um fato. Eu tinha um segurança.

Como eu era nerd, magricelo e asmático, não sobreviveria muito no mundo inóspito, selvagem e fedido da escola sem a ajuda de alguém mais forte. Por isso, fiz um pacto com o Breu, o capitão do time de basquete da escola: se ele me livrasse das brigas, eu dava cola nas matérias pra ele.

Breu afastou Léo Preto com sua mão de 17 polegadas. Perguntou se eu queria que desse uma coça nele, mas eu pedi pra poupar a vida do sujeito. Gostava do mané.

Léo Preto ficou grato com minha suprema bondade e acabou esquecendo disso. Ficamos muito amigos.

Ele parou de passar trote pra minha casa.

Eu só passava trote pra casa dele de vez em quando, porque adorava ouvir os barracos da Dona Black.