Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

9.1.04

parentes, essa raça interesseira



Quando comecei na profissão, só papai e mamãe em ajudaram. Ninguém me arrumou uma boca-rica ou me deu uma chance num escritório. Tive de enfrentar os reclamante selvagens de Itaguaí, bem como a sobreviver a testemunhas bêbadas em São Gonçalo.

Foram tempos sofridos, de muito sangue, suor e chulé.

Há pouco tempo, comecei a ganhar algum dinheirinho. Não é nada demais, mas já estou levantando uma laje em Vila Kennedy, aonde tenho status de prefeito e sou querido pela comunidade.

Esse meu relativo sucesso profissional despertou a cobiça de parentes distantes, essa maldita raça de primo-de-vigésimo-grau, que resolveu aparecer, do nada, e tentar descolar um troco em cima da minha pessoa, honesta e trabalhadeira.

Esse tal primo me ligou ontem, dizem que precisava de um favor, queria uma vaga de advogado pro seu filho, rapaz recém-formado.

Vale dizer que essa figura pouco falou comigo na vida, só nos vimos umas 2 ou 3 vezes, naquelas tradicionais e obrigatórias reuniões familiares (v.g. enterros e casamentos).

Falei que o meu elenco estava fechado, e que não cabia mais ninguém. Se ele quisesse, me mandasse o currículo do menino por email que eu trataria de recomendá-lo ao Poposão Rosa, que teria mais alguém a lhe socar o feijãozinho.

Como todo cara-de-pau é insistente, ele encheu o saco. Queria por que queria. Mas eu fui treinado em lidar com gente chata, mal-educada, metida, grosseira e escrota. Aprendi, com o meu mentor espiritual e primeiro patrão, o Ilmo. Dr. Michael Sullivan (ele era a cara do sujeito), como enfrentar essa escumalha, sem usar de força física ou de palavras torpes.

Pelo telefone, o jeito mais fácil de se livrar de um chato é começar a falar "não tô te ouvindo, fala mais alto". Depois, repetir umas duas vezes um "alô? alô? vou desligar, não tô te ouvindo". O camarada vai acabar desligando também, daí, é só tirar o telefone do gancho por uns 20 minutos. Se o cara ligar novamente, peça pra alguém atender e dizer que saiu.

Foi o que eu fiz. Desliguei na cara do malandro e deixei por isso mesmo.

Pensei que tivesse me livrado do infeliz. Geralmente, esse simplório subterfúgio picareta costuma dar resultados sensacionais. Acontece que hoje, ao chegar todo feliz e faceiro em minha maloca profissional, me deparei com o mala-pai e o mala-filho, me aguardando na sala de espera. Beth Bocão, minha secretária lésbica, me olhou com cara de suplício.

Cumprimentei os babacas. Estavam todos de terno. Quem fez o nó da gravata deles devia sofrer de Parkinson. O mesmo nó torto para o lado esquerdo.

Recebi a malandragem na minha sala. Ficaram sacando meus livros, meu computador, meu mousepad do glorioso Vasco da Gama, essas coisas. Fizeram um levantamento visual pra ver se eu realmente tinha dinheiro.

O jovem advogado me mostrou o currículo. Uma merda. Conseguiu me barrar. Formado pela Faculdade da Cidade de Ipanema (também conhecida como "A Boate"), sua única experiência foi o escritório modelo da faculdade. Pelo visto, eu teria de ensinar o jovenzinho a peticionar e a não tratar o juiz de "você".

A dupla forçou a barra, mas eu empreguei outro macete, ensinado pelo meu ex-chefe mineiro:

Chorei miséria. Com o cenho franzido, e olhando para um ponto fixo distante, comecei a desfiar um rosário de dor, sofrimento e desilusão. O que não deixa de ser verdade. Contei dos clientes que não pagam, processos que não andam, meu vício em prostitutas (ok, essa parte eu ocultei), etc.

E quando terminei, continuei, com a expressão desolada, olhando para o além, mas em silêncio.

A pelegada ficou super constrangida. Não tinham como me abordar mais. Eu tava olhando prum horizonte imaginário, com cara de tristeza, e em silêncio. De rabo de olho, vi que eles não sabiam o que fazer.

Depois de longos cinco minutos, o mala-pai me abordou e jogou a toalha. Iriam embora, mas "manteriam contato".

E assim foram. Os sábios truques mentais de meus mestres Dr. Michael Sullivan e Dr. Mineirinho deram certo.

Depois. ao comentar o ocorrido com Beth Bocão, soube que a mona foi interrogada pelos meus primos-malas, que perguntaram pra ela até uma estimativa de quanto eu ganhava por mês.

Moral da estória: pato novo mergulha raso. Enquanto tu tira nove, malandro tira dez.