Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

15.12.03

adamastor comenta a nova etiqueta



Minha avó paterna, mulher cabeça, intelectual e presepeira, era apaixonada por livros. Tinha uns mil livros, dos mais variados assuntos, mas a véia adorava mesmo era poesia.

Como eu fui seu único neto que apreciava a beleza da leitura, fui o herdeiro do seu acervo. Toda a aquela merdaiada empoeirada me foi presenteada pela finada senhora.

Muita coisa eu joguei fora, até porque, não preciso de antologias poéticas de comunistas gregos péla-sacos (perdoêm o tradicional pleonasmo).

Contudo, um livro eu fiz questão de guardar, porque não só é delicioso como também serve de base para o assunto do post de hoje.

O livro em questão é um antigo manual de etiqueta (não sei de cabeça os dados bibliográficos, mas prometo que um dia os porei aqui).

Ele ensina tudo: como se portar numa audiência com o Papa (deve-se beijar só o anel do Sumo Sacerdote. Essa coisa de três-beijinhos-pra-casar não pega bem com o Dr. Papa.), como comer aspargos, quais as ocasiões que as senhôras deveriam usar luvas, etc.

Uma parte que eu acho importante é a que fala sobre os encontros amorosos. Na época da edição do livro, que calculo ser dos anos 50, as moças casavam, em tese, virgens, e a boquinha da garrafa era banida totalmente da sociedade cristã.

O interessante é que todo mundo sabia como se portar. Você não ia comer a menina tão cedo, mas, ao menos, sabia como evoluir o relacionamento, pois cada etapa tinha suas formalidades.

Era aquela coisa: você conhecia a moça, era apresentado aos pais dela, depois, vinha o namoro, uns beijos, se fosse bom de lábia, rolava um peitinho e um bolagato no banco de trás do carro. Se você fosse realmente muito bom de conversa, conseguia ainda comer a menina.

Nesses bons tempos, os rapazes e as mocinhas sabiam como se portar.

Agora, meus amigos, nesses tempos apocalípticos pós-bug do milênio e pós-boquinha da garrafa, a coisa degringolou completo.

As formalidades da sociedade cristã foram derrubadas pelo movimento hippie e pelo roquenrol, que transformaram tudo numa grande putaria.

Cada mulher, agora, cria sua própria etiqueta.

É mais ou menos assim: tem meninas que só dão no terceiro encontro, sendo que, cada encontro, para ser contabilizado, precisa ocorrer em dias diferentes e durar, ao menos, 20 minutos. Já outras garotas dão no primeiro encontro, mas você precisa ouvir a egotrip dela de 40 minutos. Outras, por sua vez, só vão beijar no segundo encontro, e vão foder apenas depois de você conhecer os pais dela.

Como proceder em tais situações? Afinal, há meninas rapidinhas e outras que são mais lentinhas, e as formalidades, nesse caso, precisam ser seriamente obedecidas, caso o rapaz queira atingir o útero da senhorita.

Isso acaba confundindo a cabeça do homem moderno. Se ele agir muito rápido, e for logo querendo um peitinho, pode ser rotulado como maníaco do parque. Se for muito educadinho, vão achar que é gay, ou, pior, mórmon.

Acaba que o rapaz precisa de sensibilidade para agir em cada situação. Terá de fazer um julgamento de valor sempre que conhecer uma menina.

Depois eu explico como.