Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

28.11.03

pobremas domésticos



hoje eu não fui trabalhar. fiquei em casa sozinho com a peãozada, chefiando as obras no meu portentoso e nababesco quarto de solteiro.

mandei trocar a porra toda. botei uma estante para a minha vasta coleção de livros e uma mesa para o meu dvd home-tite (parcelado em 6x no Ponto Frio).

caprichei nessa parada, pra valorizar o meu matadouro. pretendo convidar algumas leitoras (16-42 anos, até 80 kg) que tenham curiosidade em saber porque sou conhecido como "gigante pela própria natureza".

nunca reparei no quanto toca o telefone aqui em casa. a maioria dos telefonemas é pra minha mãe. como d. mocinha tem a sua própria máfia judaica, seus "protegidos" ligam pra pedir a bença. detesto anotar recado e sempre finjo que estou copiando o número de telefone.

mas o pior de tudo é um camarada de uma imobiliária que ligou nesse momento. queria falar com a minha mãe sobre uma "cobertura" na cinco de julho. o filho da puta se deu ao trabalho de descrever detalhadamente todo o maldito imóvel pra mim, afinal, já que nao conseguiu falar com mamãe, iria pentelhar outra pessoa.

Ele nem se deu ao trabalho em saber quem eu era.

A narrativa foi chatíssima, envolvendo toda sorte de termos engenhéricos e arquitéticos, os quais, pela minha natureza heterossexual, desconheço completamente. Nào tenho a menor idéia do que seja um "pé direito" ou uma "planta baixa".

Acontece que eu tomei gosto pela estorinha. sacanear os outros é a minha profissão. essa brincandeira é minha.

Mandei um verde: falei que essa cobertura era propaganda enganosa, porque não tinha nada construído, e o comprador só teria o direito de uso sobre a laje.

Silêncio do outro lado da linha. O camarada caiu. Pigarreou e insistiu dizendo que "era cobertura, mas só nao havia nada construído".

Daí eu tomei gosto em sodomizar remotamente o infeliz. Falei que era propaganda enganosa, que eu poderia ir no Procom, no Supremo Tribunal Federal e até na Corte de Haia pleitear a demolição do prédio. Cobertura e direito de laje são coisas totalmente diversas.

Pedi o nome do sujeito que fez a propaganda. Eu ia "protocolizar uma reclamação formal perante o Conselho Consultivo de Publicidade Predíticia desta Comarca".

O cara ficou nervosíssimo. Começou a dizer que "eu tava muito nervoso", que "a coisa não éassim".

Falei que sabia dos meus direitos constitucionalmente outorgados. Que lutaria até o último argumento para que aquele prédio, ostentando aquela repudiosa propaganda enganosa, fosse demolido, para que fosse mantida a autoridade dos princípios jurídicos mais caros ao homem moderno.

O vendedor ouviu, entre reverente e temente, todo o meu manifesto. Quando terminei a minha longa sustentação (calculo que falei sem parar por uns 20 minutos, citando Proust, Maquiavel, Benito de Paula e outros iluministas), o cara pergunta

- Quem é você?

- Sou o judante do pedrero. Qué falá cum quem?

Desligou na minha cara.

Não tem problema. Estou aguardando uma nova vítima para distrair minha modorrenta tarde.