Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

21.10.03

Ela não ligou, e agora?



Quem tem a imensa paciência (e falta do que fazer) para ler minhas desventuras, em que inovo a língua portuguesa com minha prosa ligeira e meus excessos de vírgulas, bem sabe que fui vítima de uma horrenda prática que até pouco tempo ("pouco tempo"= antes da revista Nova publicar suas matérias maledicentes, provocando a rebelião das frágeis cabecinhas femininas) era exclusiva do sexo masculino: a promessão não cumprida de ligar.

Com isso, acabei vivenciando a situação do ponto de vista da vítima, a mulher, através dos seguintes momentos:

1o momento: a negação-esperança: mesmo sendo tarde da noite, eu acreditava que ela iria ligar, . Achava totalmente absurda a hipótese de não receber um telefonema.

2o momento: a constatação da realidade: após longa espera, percebi o fato. Não ligou e nem vai ligar. Fui ludibriado, enganando, iludido, "estelionatado".

3o momento: a culpa: tentei relembrar todos os nossos encontros, tudo o que eu falei e as reações dela. É a etapa mais dolorosa, em que achei que a culpa foi minha, por algo que teria supostamente feito. Será que foi pelo fato de que não ri da piadinha imbecil dela? Será que foi porque bocejei enquanto ela falava sobre Homeopatia Cósmica? Poderia ter feito algo diferente? Minha mente foi povoada por incertezas e angústias (essa última frase foi muito brega, depois eu reescrevo).

4o momento: a raiva/indiferença: como superei a fase anterior -muitas pessoas acabam se matando ou, pior, ligando para o (a) ex-namorado (a) - senti raiva em ser rejeitado. Quem esta mulher pensa que é para fazer isso comigo? Sou advogado, não tenho cáries na boca e moro na zona sul. Que me trate com respeito. Até pensei em vingança, mas isso é coisa de pobre, ou de personagem de livro do Sidney Sheldon. Preferi ficar com a indiferença, e tratar a menina com frieza e distância.

Claro que, depois disso tudo, liguei pro Dr. Survektor, meu psiquiatra amigo, e chorei as pitangas. Ele, como bom adepto de Freud, me mandou tomar na bunda (espero que figurativamente) e me receitou uma caixa de tarja-preta.

E a vida continua.