Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

8.9.03

Patolagem visual



Como os amiguinhos sabem, sou advogado trabalhista, especialista em ferrar ex-empregados revoltosos que ousam pedir hora-extra contra suas empresas. Acontece que, por fruto de minha inefável cara-de-pau, estou descolando um troco pegando umas causas criminais amenas.

O que não conto pros clientes é que só fiz uma audiência desse tipo na vida. E que se fodam esses filhos da putam. Fizeram merda, agora que tenham um adevogado incompetente.

Daí, fui fazer umas perguntinhas à galera do Juizado, pra me dar umas dicas legais.

Enquanto esperava a sala de audiências abrir, fiquei no corredor, em pé.

Subitamente, passa por mim uma menina, que não devia ter mais do que quatorze anos, olhando-me fixamente. Era aterrador.

E ainda fixou seus tenros olhinhos, durante longos segundos, em minhas jóias.

Era um olhar sôfrego. Só faltou arreganhar as suas frágeis e magras pernas.

Me senti mal, criançada. Eu posso ser pervertido, curtir uma putaria, mas, porra, eu sou pai (de filhos não conhecidos e reconhecidos, diga-se de passagem). Aquilo era um feto.

Além disso, com tanto homem pintoso e pintudo, porque olhar justamente pra mim? Será que meu nariz soberbo tá na moda?

Eu me choco com essas porras modernas. Primeiro, é esse lesbianismo chique, depois, essa moda de piercing na língua, depois, essa coisa de dizer que DJ é músico e que arranjar disco com vitrola é fazer música.

Agora, ser assediado e patolado visualmente por uma criança é o fim do mundo!

Onde é que isso vai parar?