Contos do Adamastor

Estorias surreais de pessoas irreais, contadas por um advogado ranzinza, carente, gentil e docil como um pequeno sagui silvestre. Nao recomendado para minorias intelectuais ou pessoas que se ofendem facilmente. Email: adamastor-em-gmail.com (sim, eu tenho um email do Google. Isso porque eu sou um nerd influente e poderoso)

8.9.03

Maquiavel e a falta d'água



Faltou água no meu prédio nessa quarta-feira. Mas não foi coisa por causa dos consertos da CEDAE em suas portentosas usinas.

Foi por obra da estupidez da síndica, D. Baranga Petista.

Ela cismou de lavar as caixas d'água no dia em que a CEDAE cortou o abastecimento de água. E olha que avisaram antes.

Resultado: ficamos todos dois dias sem água. Teve de vir um caminhão-pipa para abastecer os raivosos moradores.

Tive de sobreviver tomando banho na academia de ginástica. Se bem que não gosto de ficar pelado com um monte de homem. Nem pra servir (ou fugir) do Exército tive de passar por isso.

Como meus supracitados co-condôminos estavam supracitadamente nervosos, rolou um barraco. A neta da ex-síndica D. Xoxotinha, uma maconheirazinha que estuda Cinema (perdôem o pleonasmo), quase bateu em D. Baranga Petista. A sorte que nosso destemido porteiro, Seu Bobinho, salvou o buço da baranga.

Politicamente, todos os eventos foram importantes para meu jogo de poder no meu pequeno edifício.

Na qualidade de único adevogado daquela bagaça, presido o Conselho de Segurança (não me lembro o nome correto desta merda. Na faculdade a gente não estuda a Lei do Condomínio). O Conselho dá umas dicas marotas pra síndica e aprova as contas da mulher. Era como se a gente sugerisse as merdas pra ela fazer e tomar esporro ou levar crédito. É ótimo.

Além disso, sou querido pelas vovozinhas do prédio. Até D. Xoxotinha, que é da oposição, gosta da minha pessoa. Consegui o voto dessa filha da puta pra reeleger a síndica por unanimidade. Só teve a abstenção de outra pessoa problemática, a neta do falecido Seu Mudinho (que Deus o tenha).

Com a unanimidade, D. Baranga achou que podia mandar sozinha. Que não poderia ser manipulada. Que, ao invés de fazer as merdas que eu sugeria, poderia fazer suas próprias. A limpeza da caixa d'água provou o contrário. Quase tomou porrada e ganhou a antipatia dos moradores. E olha que avisei pra infeliz não fazer isso.

Mas fez e se fodeu. Quando a encontrei, mandei o famoso "não te disse"? Ela ficou com medo de tomar porrada de jurou fidelidade à minha pessoa.

Eu poderia tentar acalmar a oposição, mandando um recado pra D. Xoxotinha e sua neta maconheira-cinematologista. Não vou. Vou deixar D. Baranga sentir um pouco a dor da crítica, da voz descontente da patuléia.

Acontece que eu não posso deixar a D. Xoxotinha crescer. Ela foi síndica e sempre sonhou em voltar, pra roubar como fazia em outrora.

Não posso deixar que esses incidentes queimem demais a minha síndica-biônica. Ela é petista, mas não rouba e faz o que eu mando.

Se a D. Xoxotinha começar a ficar popular, vou ter de botar em prática meu plano pra sujar sua imagem. Sem que ela saiba, é claro, pois eu preciso do voto dela.

O plano é o seguinte: tendo em vista que a neta maconheira de D. Xoxotinha costuma ir ao playground todas as noites fumar maconha com seu namoradinho, um zé-ruela que não cumprimenta as pessoas e anda olhando pro chão, igual pivete em delegacia, armo um flagrante esperado pros dois e mando pros meus camaradas da DP aqui de perto. Depois, vou lá livrar a cara dos dois.

D. Xoxotinha vai ficar com uma péssima imagem entre as vovozinhas do prédio e ainda fica devendo um favor.

Assim, continuarei zelando por meus interesses, de forma discreta e ordeira.

E talvez ainda ganhe um boquete da netinha-fumum...